Perfil · Gestão de Investimentos

O gestor que apostou contra o consenso — e acertou

Por Adriana Cavalcante · 22 de julho de 2026 · Atualizado em 22 de julho de 2026 · Leitura: 10 minutos

Em dezembro de 2024, quando o relatório Focus mostrava que o mercado esperava Selic abaixo de 10% para o final de 2025, um gestor independente de São Paulo mantinha posição oposta. Seu fundo estava comprado em juros — apostando que a Selic ficaria mais alta por mais tempo do que o consenso projetava.

O nome dele é Rodrigo Fonseca, 43 anos, fundador de uma gestora boutique com R$ 280 milhões sob gestão. Não é um nome que aparece nas listas dos maiores gestores do país. Mas no ano passado, seu fundo rendeu 19,8% — quase o dobro do CDI.

Fui até o escritório dele, num andar alto de um edifício comercial no Itaim Bibi, para entender como ele chegou lá.

A tese que ninguém queria ouvir

"Em 2024, todo mundo estava animado com a desinflação global. O Fed estava cortando juros, o BCE estava cortando juros, e o mercado brasileiro queria acreditar que o Copom ia seguir o mesmo caminho", Fonseca me disse, sem tirar os olhos de uma tela cheia de gráficos. "Mas eu olhava para a inflação de serviços no Brasil e via que ela não estava cedendo. Não tinha como o BC cortar tanto quanto o mercado esperava."

A tese era simples na teoria. Difícil na prática, porque ir contra o consenso tem um custo emocional e profissional. "Quando você está errado por seis meses seguidos, os cotistas ligam. Você precisa ter convicção suficiente para aguentar."

"Gestão de risco não é só sobre proteger o portfólio. É sobre proteger a sua capacidade de continuar operando quando você está errado." — Rodrigo Fonseca

O momento em que o mercado virou

A virada veio no segundo trimestre de 2025, quando os dados de inflação de serviços começaram a mostrar resistência persistente. O mercado foi revisando as projeções de corte de juros para cima, e o fundo de Fonseca começou a se beneficiar das posições que ele havia construído ao longo de meses.

"Não foi uma sacada de gênio. Foi paciência e disciplina. Eu tinha um modelo, o modelo dizia que o mercado estava errado, e eu mantive a posição." Ele pausa. "Mas admito que teve momentos em que eu me perguntei se era eu que estava errado."

O que vem pela frente

Perguntei a Fonseca o que ele está fazendo agora. Ele sorriu. "Não vou te dizer. Mas posso dizer que o mercado ainda está cometendo erros parecidos com os de 2024." Ele não quis elaborar. Mas a conversa deixou claro que ele já tem uma tese formada — e que está disposto a esperar o tempo que for necessário para que ela se prove.

Adriana Cavalcante

Editora e repórter

Jornalista com 16 anos de experiência. Especializada em economia informal, mercado de trabalho e finanças comportamentais.