O Brasil que não aparece no PIB: como a informalidade molda a economia real do país
Dona Conceição acorda às quatro da manhã três vezes por semana para ir à feira livre de um bairro periférico de Fortaleza. Ela vende salgados, refrigerantes e água. Não tem CNPJ, não emite nota fiscal, não paga INSS. Mas tem uma conta digital, usa Pix para receber pagamentos e guarda parte do que ganha numa conta remunerada que rende próximo ao CDI.
Ela é parte dos 41% de trabalhadores brasileiros que estão na informalidade — um número que os economistas costumam citar como problema estrutural, mas raramente param para entender de dentro.
Passei três semanas conversando com trabalhadores informais em Fortaleza, Salvador e São Paulo. O que encontrei foi uma economia paralela muito mais sofisticada do que as estatísticas sugerem — e muito mais vulnerável do que os seus participantes gostariam de admitir.
A bancarização que chegou pela porta dos fundos
Até 2019, Dona Conceição guardava dinheiro em casa. "Não confiava em banco", ela me disse. "Minha mãe perdeu tudo no Plano Collor." A desconfiança era racional — e geracional.
O que mudou foi o Pix. Quando o sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central foi lançado, em novembro de 2020, os trabalhadores informais foram um dos grupos que mais rapidamente o adotaram. Não porque entenderam a política monetária por trás do sistema, mas porque ele resolvia um problema prático: receber pagamentos de clientes sem precisar de maquininha de cartão.
"Antes do Pix, eu perdia cliente porque não aceitava cartão. Agora aceito Pix e todo mundo tem. Minha renda aumentou uns 20% só por isso." — trabalhadora informal, Salvador.
A bancarização veio pela porta dos fundos. Fintechs como Nubank, PicPay e Mercado Pago ofereceram contas sem tarifas e sem burocracia — sem exigir comprovante de renda formal, sem análise de crédito, sem agência física. Para quem estava fora do sistema financeiro, foi uma revolução silenciosa.
O crédito que ainda não chegou
Mas há um limite nessa inclusão. Quando Dona Conceição precisou de capital para ampliar o negócio — comprar um equipamento para fazer salgados em maior escala — descobriu que o crédito formal ainda não estava disponível para ela.
Sem comprovante de renda formal, sem histórico de crédito nos bureaus tradicionais, sem garantias reais, as portas dos bancos convencionais permaneceram fechadas. Ela recorreu a uma financeira informal — o famoso "agiota de bairro" — e pagou juros que ela prefere não calcular.
Esse é o paradoxo da inclusão financeira brasileira: chegou a conta, chegou o Pix, chegou o investimento em renda fixa. Mas o crédito produtivo — aquele que permite ao trabalhador informal crescer e eventualmente formalizar o negócio — ainda é escasso e caro.
O que os dados não capturam
O IBGE estima o tamanho da economia informal em cerca de 17% do PIB. Mas esse número é, por definição, uma estimativa — e provavelmente subestimada. A economia informal não deixa rastros contábeis. Não há nota fiscal, não há declaração de imposto de renda, não há folha de pagamento.
O que existe são Pix, transferências entre contas digitais e dinheiro em espécie. E, cada vez mais, um registro digital que as fintechs estão aprendendo a usar para construir scores de crédito alternativos — baseados em histórico de transações, não em comprovantes de renda.
Esse pode ser o próximo capítulo da inclusão financeira brasileira. Mas por enquanto, Dona Conceição ainda acorda às quatro da manhã e ainda depende de crédito informal para crescer.